Tag Archives: matriarcado

No matriarcado de Pindorama

Postado por Maria Carolina Almeida

Bachofen, em Direito Materno – um estudo acerca da presença do matriarcado nas sociedades primitivas –, afirma que a presença de um rigoroso sistema social que regia a sociedade patriarcal romana aponta para a existência de um sistema anterior, que precisava ser combatido e suprimido (BACHOFEN, 1992, p. 75). Segundo ele, a estabilidade da força da figura paterna, que ainda hoje rege o funcionamento social, derivou-se dos ideais políticos romanos, concretizados num estrito modelo jurídico que se propagou em todas as esferas da vida. Endossando estes ideários, Yan Thomas escreve que:

“(…) o mundo da cidade, e particularmente o mundo romano, põe no centro de suas preocupações questões de ordem, de conformidade e de poder. Numa sociedade que soube tão bem explicar os princípios que a regem e fazer de sua exegese e de sua classificação uma arte cultivada com talento, não é indiferente que, estando o pai no centro da representação normativa, a questão do pai tenha estado no centro de suas representações. “ (THOMAS, 2012, p.5)

E, segundo Bachofen tais questões garantiram a preservação da religião, dos costumes e da boa conduta e, acima de tudo, o impedimento de um retorno popular aos ideais matriarcais. (BACHOFEN, 1992, p. 118)

Num movimento reverso, Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago, se colocará contra o ideal patriarcal romano e postulará uma volta ao matriarcado. Em um dos primeiros aforismos que compõem o manifesto, ele postula “Contra todas as catequeses. E contra a mãe dos Gracos”, colocando-se, de início, contra o patriarcado romano. Embora seja uma figura feminina, Cornélia Africana – a mãe dos irmãos Tibério e Caio Graco – representa o mais ideal exemplo da educação patriarcal romana, metodicamente criando seus filhos para a virtude (PLUTARCO, s/d, p. 90).

Mais à frente no Manifesto, Oswald se colocará “Contra a realidade social, vestida e opressora, cadastrada por Freud”, exaltando, assim, uma “realidade sem complexos, sem loucura, sem prostituições e sem penitenciárias do matriarcado de Pindorama”. A temática do matriarcado, embora não tenha sido desenvolvida nos vários números da Revista de Antropofagia, foi recuperada por Oswald após sua saída do Partido Comunista, em 1945. Segundo Antonio Candido, ele “retomou as ideias da Antropofagia com vistas à sua velha luta contra o autoritarismo, expresso na imagem do pai e nos sistemas sociais que a prolongam, contra os quais fez a apologia do matriarcado”. (CANDIDO, 1999, p. 73)

Dos textos escritos nesta época por Oswald, talvez o que mais manifeste suas concepções acerca do matriarcado seja a tese “A crise da filosofia messiânica”. Escrito para concorrer a uma cadeira de Filosofia da Universidade de São Paulo, o texto demonstra a anunciação de um novo matriarcado a partir da constatação de um declínio dos ideais patriarcais. Baseando-se nos estudos de J. J. Bachofen, acima mencionados, Oswald propõe uma “equação fundamental”, em que os dois primeiros termos corresponderiam, respectivamente, ao homem natural, vivendo sob os preceitos do matriarcado, e ao homem civilizado, vivendo sob o sistema patriarcal. O terceiro e último termo corresponderia a síntese dos dois anteriores, o homem natural tecnizado, vivendo sob o então “retorno” ao matriarcado.  (ANDRADE, 1978, p. 79)

Para Oswald, é no segundo estágio da equação em que nos encontramos atualmente, no estado de negatividade, na antítese, consequência da “ruptura histórica com o mundo matriarcal […] quando o homem deixou de devorar o homem para fazê-lo seu escravo” (Ibidem, p. 81). A escravização desencadeou, segundo Oswald, uma série de outros processos que culminaram na sobreposição da classe sacerdotal sobre as outras. Sua importância para o patriarcado se dava principalmente porque num mundo onde não houvesse a ideia de uma vida divina após a morte, “seria difícil ao homem suportar a sua condição de escravo” (Idem), ou seja, o homem trabalha para que possa usufruir do ócio, que não representa aqui o vício, mas a possibilidade de se dedicar “às conquistas do espírito” em oposição ao trabalho manual. (Ibidem, p. 83). Neste sentido, o terceiro estado – a síntese dos dois estágios anteriores –  seria o processo de tecnização do mundo para que o homem possa gozar de sua “preguiça inata, mãe da fantasia, da invenção e do amor.” Isto é, “restituir a si mesmo, no fim do seu longo estado de negatividade, na síntese, enfim, da técnica que é civilização e da vida natural que é cultura, o seu instinto lúdico. ” (Idem).

À vista disto, na medida em que o Matriarcado se configura não como uma “volta” ao estado primitivo, mas como uma nova etapa de tal condição, é que ele se revela como uma questão de tamanha importância para a Antropofagia. O Matriarcado de Pindorama é a “Idade do Ouro anunciada pela América”, é o fruto da Revolução Caraíba, é o estado de felicidade “antes dos portugueses descobrirem o Brasil” (ANDRADE, 1928, p.3). Sobre isso, Benedito Nunes escreve que:

“Criaríamos assim, pelo caminho do máximo progresso material, um novo estado de natureza, que nos devolve à infância da espécie, onde, numa sociedade matriarcal, alcançaremos na alegria (veja-se nisso outra réplica parodística à alegria cósmica de Graça Aranha), a prova dos nove de nossa felicidade. ” (NUNES, 1990, p. 23)

Referências

ANDRADE, Oswald de. A Crise da Filosofia Messiânica. In: Do Pau-Brasil à antropofagia e às utopias: Manifestos, teses de concursos e ensaios. Civilização Brasileira, 1978.

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Revista de Antropofagia. n. 1. 1ª dentição. p. 3 e 7, maio 1928. [Edição fac-similar. São Paulo: Imprensa Oficial, 2015].

BACHOFEN, Johann Jakob. Myth, Religion, and Mother Right: selected writings of J.J.Bachofen. Trad.: Ralph Manheim. Princeton: Princeton University Press, 1992.

CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. São Paulo: Humanitas/ FFLCH/USP, 3ª ed., 1999.

NUNES, Benedito. A Antropofagia ao alcance de todos. In: A utopia antropofágica. Vol. 6. Globo Livros, 1990.

PLUTARCO. A vida dos homens ilustres: Agis e Cleómenes e os Gracos. Trad.: Sady Garibaldi. São Paulo: Ed. Atenas. Biblioteca Clássica, 2ª ed., vol. XIV.

THOMAS, Yan (1984). Catão e seus filhos. Tradução de Felipe Vicari de Carli. Revisão de Eduardo Viveiros de Castro. Sopro, n. 66, p. 2-9, fev. 2012.