O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo

Postado por Maria Carolina Almeida

O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo. O antropomorfismo. Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores.

A Revista de Antropofagia, a partir da sua segunda dentição (1929), foi também um veículo de críticas a vários intelectuais da época. Entre eles está Graça Aranha, que, no terceiro número da segunda dentição, é referido como “um homem confuso e sem espírito, cuja inteligência inutilmente se esforça em atrapalhar todas as noções conhecidas, todas as noções copiadas. Graça Aranha não tem classificação.” (FREUDERICO, 1929, p.6)

Segundo Ana Beatriz Azevedo, neste aforismo Oswald estaria, assim como faz a Revista, respondendo e criticando ideias de Graça Aranha. Em 1925, ele publica o livro “Espírito moderno” (AZEVEDO, 2012, p. 117), no qual várias passagens referem-se a uma libertação do homem em face a natureza, e da submissão desta perante aquele. Mas há uma passagem em específico, apontada por Azevedo, que ilustraria o contraste entre a posição de Graça Aranha e a de Oswald: “É no espirito que está a manumissão nacional, o espirito que pela cultura vence a natureza, a nossa metafísica, a nossa inteligência e nos transfigura em uma força criadora, livre e construtora da nação” (ARANHA, 1925, p. 44).

Então, enquanto Graça Aranha estaria opondo natureza e cultura, em que pela cultura o espírito dominaria a natureza, Oswald estaria enveredando por um sentido contrário. Assim, a primeira frase do aforismo (“O espírito recusa-se a conceber o espírito sem o corpo.”) estaria indicando que entre natureza e cultura, corpo e espírito, não há uma cisão. Há, na verdade, uma correlação entre os dois elementos.

É possível então relacionar essa interpretação com uma ideia atual, postulada pelos antropólogos Tânia Stolze Lima e o Eduardo Viveiros de Castro, e que tem o nome de “perspectivismo ameríndio”, que se define pela noção de que:

“Cada espécie de existente vê-se a si mesma como humana (anatômica e culturalmente), pois o que ela vê de si mesma é sua “alma”, uma imagem interna que é como a sombra ou o eco do estado humanoide ancestral de todos os existentes. A alma, sempre antropomorfa, é o aspecto dos existentes que estes enxergam, quando olham para/ interagem com os seres da mesma espécie” (DANOWSKI; VIVEIROS DE CASTRO, 2014, p. 95).

Assim, o índio quando interage com um ente de outra espécie, ele sabe que está tratando com uma entidade que que é “humana-para-ela-mesma” Este fundamento do pensamento ameríndio é designado de antropomorfismo, a palavra na qual Oswald usa em seguida no aforismo. Este princípio antropomórfico, em que os animais e os demais entes seriam humanos como nós, remonta a um passado mítico, temática bastante cara para o movimento antropófago.

Em seguida no aforismo, Oswald vai postular a “Necessidade da vacina antropofágica. Para o equilíbrio contra as religiões de meridiano. E as inquisições exteriores”. Partindo do que Benedito Nunes aponta em sua versão comentada – “as religiões de meridiano são as religiões universais e messiânicas, em oposição às religiões locais, tribais, de participação cósmica” (NUNES in ANDRADE, 1995, p. 143) – podemos entender a palavra “meridiano” em dois sentidos distintos, mas ambos se referindo a ideia de “divisão”.

O primeiro sentido é de uma divisão espacial do mundo pelo Meridiano de Greenwich, uma linha imaginária que divide o mundo entre ocidente e oriente e que leva o nome de uma localidade europeia, em Londres, Inglaterra. Já o segundo sentido se dá não como uma divisão espacial, mas temporal. Para o Cristianismo, o período no qual Jesus esteve vivo chama-se “meridiano dos tempos” e, por convenção, esse período divide a história em “antes de Cristo” e “depois de Cristo”.

Assim, atingir o “equilíbrio contra as religiões de meridiano”, como propõe o Manifesto, seria agir contra essa divisão que, além de ser entre Oriente e Ocidente, antes de Cristo e depois de Cristo, é também de natureza e cultura, de corpo e espírito, de evoluído e bárbaro. Seguidamente, o Manifesto acrescenta as “inquisições exteriores”, nas quais também se coloca contra, e que são entendidas aqui como a imposição da cultura europeia e da catequese.

Por fim, para atingir esse equilíbrio seria necessária uma vacina, destacada por Ana Beatriz Azevedo por ser uma terapêutica física, ligada ao corpo. (AZEVEDO, 2012, p. 117). Esta vacina, antropofágica, seria equilíbrio entre as inquisições europeias, cristãs, que provocam a cisão na qual a antropofagia busca dissolver e devorar.

Referências

ANDRADE, Oswald de. Manifesto Antropófago. Comentado por NUNES, Benedito. In: SCHWARTZ, Jorge (Org.). Vanguardas Latino-Americanas: polêmicas, manifestos e textos críticos. São Paulo, Iluminuras/Fapesp/EDUSP, p. 142-147, 1995.
ARANHA, Graça. Espírito moderno. São Paulo: Companhia Gráfico-Editora Monteiro Lobato”, 1925. 143 p.
AZEVEDO, Ana Beatriz. Antropofagia – palimpsesto selvagem. 2012. Dissertação (Mestrado em Letras). USP, São Paulo.
DANOWSKI, Débora; VIVEIROS DE CASTRO, Eduardo. Há mundo por vir? Ensaio sobre os medos e os fins. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2014.
FREUDERICO. Ortodoxia. Revista de Antropofagia. n. 3 2ª dentição, p. 6. 31 de março, 1929. [Edição fac-similar. São Paulo: Imprensa Oficial, 2015].

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