O Padre Antônio Vieira

Postado por Maria Carolina Almeida

Contra o Padre Vieira. Autor do nosso primeiro empréstimo, para ganhar comissão. O rei-analfabeto dissera-lhe: ponha isso no papel mas sem muita lábia. Fez-se o empréstimo. Gravou-se o açúcar brasileiro. Vieira deixou o dinheiro em Portugal e nos trouxe a lábia.

Neste aforismo do Manifesto, Oswald parece se referir à estratégia do Padre Vieira de minimizar, através de sua habilidade oratória, as perdas decorrentes da criação de impostos para o açúcar importado para o Brasil.
Antônio Vieira (1608 – 1697) foi um padre português da Companhia de Jesus ordenado na Bahia. Conhecido pela sua habilidade oratória e pelos seus inúmeros sermões, é considerado um símbolo da intelectualidade e erudição brasileira. Desempenhou um papel importante no reinado de João IV de Portugal como “pregador, conselheiro [e] diplomata”, buscando sempre auxiliar a manutenção do trono sob os Bragança (LOUREIRO, 2014, p. 12). Em 1649, propõe a criação da Companhia Geral do Comércio do Brasil, e com ela o tributo sobre alguns produtos, incluindo o açúcar. Sobre isso, Vieira sugere ao rei um “sistema de compensações”, esforçando-se para equilibrar os ganhos e perdas daqueles que pagariam as cargas tributárias do açúcar. Um trecho do Parecer de Antônio Vieira a Sua Majestade (1647) – carta do jesuíta endereçada ao rei João IV dizendo-lhe como deve ser negociada a composição com os holandeses – ilustra a preocupação de Vieira em justificar o pagamento das taxas:

“Ainda que este tributo [sobre o açúcar] pareça grande, considerados os danos que com ele se evitam, e as utilidades, que se conseguem, não será pesado aos homens do Brasil, porque além de remirem das mãos de inimigos nossos, e da fé, uma tão principal parte daquele estado, seguram a navegação de seus açúcares a maior parte dos quais em outro tempo ia parar a Holanda. Libertam os seus portos, com que possam entrar os navios do reino, e comprar mais baratas e drogas dele. Terão escravos de Angola em abundância e por preços muito acomodados; conservarão o valor do açúcar que não se divertindo a outra nação sempre será grande, e sobretudo se livram dos riscos que estão ameaçando todas as nossas conquistas, se nos embaraços da guerra de Castela continuar a de Holanda. “ (LOUREIRO, 2014, p. 24)

É evidente, no entanto, que é a metrópole quem mais lucraria com o acordo. Nesse sentido, a passagem acima exemplifica a lábia do Padre Vieira, na qual Oswald faz referência.  Grava-se o açúcar brasileiro que, neste contexto, significa sobrecarregar com impostos, o lucro então vai para Portugal e a lábia, que é nosso primeiro empréstimo, fica no Brasil.

Referências

LOUREIRO, Marcello José Gomes. “Doces tributos”: Antônio Vieira e o pacto da Restauração. Revista Angelus Novus, n. 7, p. 11-30, 2015.

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